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Poesia e Arquitetura: Igual-Desigual / Carlos Drummond de Andrade

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© flickr Eliel Freitas Jr

Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são
iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todas as experiências de sexo
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou
coisa.
Não é igual a nada.
Todo ser humano é um estranho
ímpar.

Referência: DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. “Igual-Desigual”, em A Paixão Medida, 1980.

Fonte: Fracalossi , Igor . "Poesia e Arquitetura: Igual-Desigual / Carlos Drummond de Andrade" 31 Oct 2012. ArchDaily. Accessed 01 Nov 2012. http://www.archdaily.com.br/77843/poesia-e-arquitetura-igual-desigual-carlos-drummond-de-andrade/

Poesia e Arquitetura: Arquitetura Funcional / Mario Quintana

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© flickr Inmobiliaria Lares, Cangas

Não gosto da arquitetura nova
Porque a arquitetura nova não faz casas velhas
Não gosto das casas novas
Porque casas novas não têm fantasmas
E, quando digo fantasmas, não quero dizer essas
Assombrações vulgares
Que andam por aí…
É não-sei-quê de mais sutil
Nessas velhas, velhas casas,
Como, em nós, a presença invisível da alma… Tu nem sabes
A pena que me dão as crianças de hoje!
Vivem desencantadas como uns órfãos:
As suas casas não têm porões nem sótãos,
São umas pobres casas sem mistério.
Como pode nelas vir morar o sonho?
O sonho é sempre um hóspede clandestino e é preciso
(Como bem sabíamos)
Ocultá-lo das outras pessoas da casa,
É preciso ocultá-lo dos confessores,
Dos professores,
Até dos Profetas
(Os Profetas estão sempre profetizando outras coisas…)
E as casas novas não têm ao menos aqueles longos,
Intermináveis corredores
Que a Lua vinha às vezes assombrar!

Fonte: Fracalossi , Igor . "Poesia e Arquitetura: Arquitetura Funcional / Mario Quintana" 12 Jun 2012. ArchDaily. Accessed 26 Jun 2012. http://www.archdaily.com.br/53508/poesia-e-arquitetura-arquitetura-funcional-mario-quintana/

Poesia e Arquitetura: Não vive já ninguém… / César Vallejo

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© flickr joseatorralba

–Não vive já ninguém em casa –me dizes–; todos se foram. A sala, o dormitório, o pátio, jazem despovoados. Ninguém já fica, pois, que todos partiram.

E eu te digo: Quando alguém se vai, alguém fica. O ponto por onde passou um homem, já não está só. Unicamente está só, de solidão humana, o lugar por onde nenhum homem passou. As casas novas estão mais mortas que as velhas, porque seus muros são de pedra ou de aço, porém não de homens. Uma casa vem ao mundo, não quando a acabam de edificar, senão quando começam a habitá-la. Uma casa vive unicamente de homens, como uma tumba. Daqui essa irresistível semelhança que há entre uma casa e uma tumba. Só que a casa se nutre da morte do homem. Por isso a primeira está de pé, enquanto a segunda está deitada.

Todos partiram de casa, em realidade, porém todos ficaram em verdade. E não é o recordo deles o que fica, senão eles mesmos. E não é tampouco que eles fiquem em casa, senão que continuam pela casa. As funções e os atos se vão de casa de trem ou avião ou a cavalo, a pé ou se arrastando. O que continua em casa é o órgão, o agente em gerúndio e em círculo. Os passos se foram, os beijos, os perdões, os crimes. O que continua em casa é o pé, os lábios, os olhos, o coração. As negações e as afirmações, o bem e o mal, se dispersaram. O que continua em casa, é o sujeito do ato.

© Da tradução: Igor Fracalossi

Referência: VALLEJO, César. “No vive ya nadie…”. Em “Poemas en prosa” (1923-1929), Obra poética completa, Madrid: Alianza Editorial, 1994.

Fonte: Vallejo , César . "Poesia e Arquitetura: Não vive já ninguém… / César Vallejo" 22 May 2012. ArchDaily. Accessed 23 May 2012. http://www.archdaily.com.br/49629/poesia-e-arquitetura-nao-vive-ja-ninguem-cesar-vallejo/

 
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